Paisagens do Nordeste: Rota do Vinho

Rota do Vinho










Na minissérie "Amores Roubados" (2014), Leandro (Cauã Reymond) é um sommelier de vinhos que trabalha para o pai de Antônia (Ísis Valverde), que é dono de vinhedos no Nordeste do país. A trama mostra degustações da bebida e a produção de uvas na região.

O sertão produz vinho, sim senhor. O Polo Vitivinícola do Vale do São Francisco, que reúne várias vinícolas entre o Sertão de Pernambuco e o Norte da Bahia, tornou essa área – em plena Caatinga – a segunda maior produtora de vinhos, espumantes e sucos naturais de uva no Brasil. O polo ocupa uma área de mais de 10
mil hectares entre os municípios pernambucanos de Lagoa Grande (a capital da uva e do vinho do Nordeste) e Santa Maria da Boa Vista (que sedia a vinícola pioneira no negócio), além de Casa Nova (cidade baiana que incrementou o enoturismo na região).

Responsável por 99% da uva de mesa exportada pelo Brasil e pela produção de 7 milhões de litros de vinho por ano, o vale vem se destacando como modelo de desenvolvimento para o Nordeste. A vinicultura pernambucana/baiana já detém 15% do mercado nacional e emprega diretamente 30 mil pessoas na única região do mundo que produz duas safras e meia por ano.

“Isto se deve em grande parte à particularidade do clima do Vale do São Francisco, que se resume, de forma genérica, às seguintes características: 300 dias de sol por ano, temperatura média alta durante todo o ano (o que permite o contínuo desenvolvimento da planta), pluviosidade muito baixa e água para irrigação abundante graças ao ‘Velho Chico’. Todos estes fatores combinados permitem que a planta se desenvolva durante todo o ano, não estando condicionada à sazonalidade como em outras regiões tradicionais no mundo”, explica o enólogo português Ricardo Henriques.

Segundo dados do site especializado Academia do Vinho, o Vale do São Francisco abrange 500 hectares de áreas de uvas viníferas, 7 mil hectares de áreas de uvas comuns e 7,5 mil hectares de vinhedos. Entre as variedades tintas, destacam-se Syrah e Cabernet Sauvignon; entre as brancas, Moscatel, Muskadel, Chardonnay, Sauvignon Blanc, Silvaner e Moscato Canelli.

A produção atual da região é da ordem de 7 milhões de litros ao ano e aumenta entre 5% e 10% ao ano desde 2001, segundo José Gualberto Almeida, presidente do Instituto do Vinho do Vale do São Francisco. “O crescimento decorre de novos pomares que estão sendo implantados, fruto de pesquisas feitas pela Embrapa, com apoio da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), do governo de Pernambuco, por meio do Itep (Instituto Tecnológico do Estado de Pernambuco), e dos produtores, por meio do Instituto do Vinho”, afirma Almeida.

Em fevereiro de 2006, na Unidade da Embrapa Semiárido em Petrolina (PE), foi inaugurado um Laboratório de Enologia com tecnologia para ser um dos mais modernos do País. O objetivo é empreender análises dos vinhos da região com monitoramento da qualidade e certificação da procedência do que é produzido no Vale do São Francisco. O investimento inicial da Finep e Embrapa foi de R$ 1,4 milhão. No mesmo ano, foi assinado convênio entre as instituições, no valor de R$ 795 mil, para implantação de vinhedos que pudessem servir de base para selecionar e divulgar novos cultivares, permitindo o desenvolvimento da pesquisa de novos vinhos com características peculiares da região.

Entre as variedades já testadas, a uva espanhola Tempranillo foi a que apresentou melhores resultados. Outra aposta é a francesa Petit Verdot, que costuma ser usada numa proporção de no máximo 5% nas combinações com outras uvas, mas foi testada em um vinho varietal – que usa de 70% a 100% de apenas um tipo de uva. A terceira indicação é a italiana Barbera, do Piemonte. Todas estão em testes em vinícolas locais. Até agora, a uva que melhor tinha se adaptado à região era a Syrah.

Restam algumas dificuldades para os produtores, a começar pela resistência do público interno em relação a produtos nacionais. “O brasileiro prefere beber um vinho ruim chileno ou argentino a beber um bom vinho nacional”, conta o português João Santos, diretor técnico da Vinibrasil, há cinco anos no País.

Burocracia, falta de logística e de materiais de qualidade no mercado nacional (como rolhas e garrafas, por exemplo), gasto com frete e importações são outros problemas na competitividade do vinho nacional, além dos altos impostos que fazem com que os importados do Mercosul acabem chegando com preços menores que os nacionais. “Vinho cria empregos e identidade para a região e o Brasil precisa explorar isso melhor”, diz João Santos.

Atualmente, segundo o Vinhovasf, os vinhos do Vale do São Francisco são comercializados em todo o Brasil e em países como Itália, França, Portugal, Emirados Árabes e Estados Unidos.

Cidades: Petrolina, Lagoa Grande e Santa Maria da Boa Vista (PE), Juazeiro e Casa Nova (BA)
Estados: Pernambuco / Bahia

Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org
Paisagens do Nordeste - OpenBrasil.org
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